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sexta-feira, 29 de março de 2013

Não podemos desprezar tamanho mistério de Amor - Diácono Nelsinho Corrêa


Reze comigo: "Por tua Paixão, Senhor, tem misericórdia da minha insensibilidade e da minha ignorância! Tem misericórdia daqueles que não valorizam este dia e o vosso santo sacrifício. Misericórdia, Senhor!"
Supliquemos a graça de entrarmos no mistério deste dia. Não foi um “boneco” que morreu por nós na Cruz!
Vemos o Crucifixo no pescoço do traficante, vemos o Crucifixo na parede do bar, onde ainda se vende bebidas alcoólicas até mesmo para menores.
Estou chorando. E não de tristeza. Mas pedindo misericórdia por mim e por minha Família, e também por aqueles que ignoram a graça própria deste dia.
Paixão significa um intenso afeto. Imagine o sofrimento de Jesus na Cruz. Não podemos desprezar tamanho mistério de amor!
Você já apanhou na cara? Já foi esbofeteado de um jeito que ficou “sem rumo”? Já levou cusparadas? E o mais interessante é que Jesus estava consciente de que iria passar por tudo isto.
Em João 13,21 diz: “Depois de dizer isso, Jesus ficou interiormente perturbado e testemunhou: ‘Em verdade, em verdade, vos digo: um de vós me entregará’”.
Outra tradução afirma que Jesus “estremeceu” por dentro. Alguém já estremeceu interiormente diante do sofrimento?
Mas há outra tradução ainda mais forte que esta. Ela afirma que Jesus ficou profundamente comovido. Quem aqui já ficou profundamente comovido? Jesus ficou assim. Talvez até falando com a voz embargada. Ele não disse que alguém iria entregá-lo “sorrindo”! Não. E isto é o mais lindo: Jesus é este Deus humano. Que sofre. Que chora. Que estremece por dentro.
E as pessoas querem tirar o Crucificado das repartições públicas. Quando são para se fazer as leis, as pessoas afirmam que o estado é “laico”. Mas na hora da tragédia, da desgraça, estas mesmas pessoas recorrem ao Senhor pedindo misericórdia.
Você que é pai precisa dar um beijo no seu filho. Não adianta bancar o “macho”. Quem é “macho” é bicho! E você bancando o "machão" grita com a sua esposa na frente dos seus filhos. E você que é mãe fica acusando o seu marido também na frente das crianças. Jesus está profundamente comovido diante de situações como estas.
Quanto tempo faz que você não diz “eu te amo” para as pessoas de sua própria família? O Senhor está profundamente comovido com esta situação!
Ele também se dirige a nós que trabalhamos dentro da Igreja. Somos tão “carismáticos” dentro da Igreja mas, dentro do lar, somos como um “jumento” em forma de gente, dando “coice” em todo mundo! E o Senhor se comove com situações como esta.
Tem irmão que não fala mais com o outro irmão por causa de inventário, casa para alugar e tantas outras coisas. Famílias divididas, pessoas rancorosas, tudo isto comove o coração de Jesus.
Jesus disse que um dentre seus discípulos havia de entregá-lo. Você já sentiu a dor da traição? Quem já experimentou isto, sabe o quanto dói!
Jesus está profundamente comovido diante da situação de muitas nações. Principalmente na Europa. Países onde o Catolicismo sempre foi tão forte, nos quais tantos missionários surgiram e foram enviados em missão. Hoje estas nações ignoram a Cruz de Cristo.
Líderes que zombam da Cruz do Senhor. Países onde existem dois pesos e duas medidas. Estão querendo destruir o modelo tradicional de família. Jesus comove-se diante da ignorância do povo longe de Deus, que já não O respeita mais.
Quantos vivem a Quaresma e a Semana Santa sem estar “nem aí” para a graça própria deste dia. Indo para Cruzeiro (SP) cruzei, na estrada, com um casal de moto. Na garupa, a moça levava uma latinha de cerveja. Rezei por eles e fiquei pensando naquelas pessoas que abusam nas estradas, sofrem um acidente e blasfemam contra Deus!
Mas o Senhor comove-se diante de tanta miséria e dor! Como é maravilhoso tocarmos neste Deus tão humano! O Verbo se fez carne. Fez-se um de nós. É por isto que Ele nos entende tanto.
As pessoas do tempo de Jesus esperavam um Messias político, como um general que caminhasse à frente do exército e exterminasse os pagãos. Mas Jesus não é um Messias assim. Ele nos fala de amor.
E quantos de nós, diante deste amoroso Senhor, ficamos revoltados porque, ao invés da tal prosperidade, acaba enfrentando uma doença, uma privação.
Esta Semana Santa nos ajuda a “quebrar o ritmo”. Vivemos numa agitação louca! É preciso parar e mergulhar neste mistério da Paixão do Senhor.
Jesus está profundamente comovido quando “entregamos” a nossa Igreja. E fazemos isto quando atacamos nossos sacerdotes, questionamos o ensinamento do nosso Papa. É preciso ter respeito pelos padres!
Quando aconteceu aquele verdadeiro ataque sobre a Igreja, há algum tempo atrás, sobre aqueles casos de pedofilia, teve muito católico “bola murcha”, de “meia tigela”, que se colocou contra a Igreja. Bento XVI tratou esses casos com toda a seriedade. E veja que foram 1% dos casos de pedofilia que envolveram padres! Mas a Igreja tratou e continua tratando desses assuntos com toda a atenção. Mas o que aconteceu? Muitos, que se dizem católicos, abandonaram a Igreja e trataram os padres como se eles não fossem “um outro Cristo” entre nós, ou seja, generalizaram, tratando os padres como se não houvesse mais nenhum padre santo, fiel ao seu chamado, em nosso meio.
Deste tipo de católico a Igreja não precisa! Nesta Sexta-feira Santa, renovemos nosso compromisso em permanecer na Igreja e com a Igreja.

(Diácono Nelsinho Corrêa)

As Sete Palavras de Cristo na Cruz


De pé, junto a Cruz, Maria, pervadida de angústia e de dores, ouvia de seu Divino Filho as últimas palavras.

Afirma São Tomás que "o último na ação é o primeiro na intenção". Pelos derradeiros atos e disposições de alma de quem transpõe os umbrais da eternidade, chegamos a compreender bem qual foi o rumo que norteou sua existência. No caso de Jesus, não só na morte de cruz, mas também, de forma especial, em suas última palavras, vemos os sentido mais profundo de sua Encarnação. Nelas encontramos uma rutilante síntese de sua vida: constante e elevada oração ao Pai, apostolado através da pregação, conduta exemplar, milagres e perdão.
A cruz foi o divino pedestal eleito por Jesus para proclamar suas últimas súplicas e decretos. No alto do Calvário se esclareceram todos os seus gestos, atitudes e pregações. Maria também compreendeu ali, com profundidade, sua missão de mãe.
Jesus é a Caridade. A perfeição dessa virtude, nós a encontramos nas "Sete Palavras". As três primeiras tem em vista os outros (inimigos, amigos e familiares); as demais, a Si próprio.


Primeira Palavra: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem" (Lc 23, 34)

Pai - É o mais suave título de Deus. Nessa hora extrema, Jesus bem poderia invocá-Lo chamando-O Deus. Percebe-se, entretanto, claramente a intenção do Redentor: quis afastar, dos fautores daquele crime, a divina severidade do Juiz Supremo, interpondo a misericórdia de sua paternalidade. Chega-se a entrever a força de seu argumento: se o Filho, vítima do crime, perdoa por que não o fazeis também a Vós?
É a primeira "palavra" que os divinos lábios d'Ele pronunciam na cruz, e nela já encontramos o perdão. Perdão pelos que Lhe infligiram diretamente seu martírio. Perdão que abarca também todos os outros culpados: os pecadores. Nesse momento, portanto, Jesus pediu ao Pai também por mim.
Embora não houvesse fundamento para escusar o desvario e ingratidão do povo, a sanha dos algozes, a inveja e ódio dos príncipes e dos sacerdotes, etc., tão infinita foi a Caridade de Jesus que Ele argumenta com o Pai: "porque não sabem o que fazem."
A ausência absoluta de ressentimento faz descer do alto da cruz a luminosidade harmoniosa e até afetuosa do amor ao próximo como a si mesmo. Ouvindo essa súplica, chegamos a entender quanta insenção de ânimo havia em Jesus na ocasião em que expulsou os vendilhões do Templo: era, de fato, o puro zelo pela casa de seu Pai.


Segunda Palavra: "Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso (Lc 23, 43)

A cena não podia ser mais pungente. Jesus se encontra entre dois ladrões. Um deles faz jus à afirmação da Escritura: "Um abismo atrai outro abismo (SL 41,8). Blasfema contra Jesus, dizendo:"Se és Cristo, salva-te a ti mesmo, e salva-nos a nós" (Lc 23, 39).
Enquanto esse ladrão ofende, o outro louva Jesus e admoesta seu companheiro, dizendo: "Nem sequer temes a Deus, tu que sofres no mesmo suplício? Para nós isto é justo: recebemos o que mereceram os nossos crimes, mas este não fez mal algum" (Lc 23, 40-41).
São palavras inspiradas, nas quais transparecem a santa correção fraterna, o reconhecimento da inocência de Cristo, a confissão arrependida dos crimes cometidos. São virtudes que lhe preparam a alma para uma ousada súplica: "Senhor, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino!" (Lc. 23, 42).
Ao referir-se a Jesus enquanto "Senhor", o bom ladrão professa sua condição de escravo e reconhece-O como Redentor. O "lembra-te de mim" é afirmativo, não tem nenhum sentido condicional, pois sua confiança é plena e inabalável. Compreende a superioridade da vida eterna sobre a terrena, para o mau ladrão, constitui um delírio: o afastamento da morte, a recuperação da saúde e da integridade.
O bom ladrão confessa publicamente a Nosso Senhor Jesus Cristo, ao contrário até mesmo de São Pedro, que havia três vezes negado o Senhor. Tal gesto lhe fez merecer de Jesus este prêmio: "Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso" (Lc 23, 43).
Jesus torna solene a primeira canonização da história: "Em verdade..."
A promessa é categórica até quanto à data: hoje. São Cipriano e Santo Agostinho chegam a afirmar ter recebido o bom ladrão a palma do martírio, pelo fato de, por livre e espontânea vontade, haver confessado publicamente a Nosso Senhor Jesus Cristo.


Terceira Palavra: "Junto à Cruz de Jesus estavam de pé sua Mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cleófas, e Maria Madalena. Quando Jesus viu sua Mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à sua mãe: "Mulher, eis aí teu filho". Depois disse ao discípulo: "Eis aí tua Mãe". E dessa hora em diante o discípulo a levou para a sua casa" (Jo 19, 25-27)

Com essas palavras, Jesus finaliza sua comunicação oficial com os homens antes da morte (as quatro outras serão de sua intimidade com Deus). Quem as ouve são Maria Madalena, representando a via da penitência; Maria, mulher de Cleófas, a dos que vão progredindo na vida espiritual; Maria Santíssima e São João, a da perfeição.
Consideremos um breve comentário de Santo Ambrósio sobre este trecho: "São João escreveu o que os outros calaram: (pouco depois de) conceder o reino dos céus ao bom ladrão, Jesus, cravado na Cruz, considerado vencedor da morte, chamou sua Mãe e tributou a Ela a reverência de seu amor filial. E, se perdoar o ladrão é um ato de piedade, muito mais é homenagear a Mãe com tanto carinho ... Cristo, do alto da cruz, fazia seu testamento, distribuindo entre sua Mãe e seu discípulo os deveres de seu carinho" (in S. Tomás de Aquino, Catena Aurea).
É arrebatador constatar como Jesus numa atitude de grandioso afeto e nobreza, encerrou oficialmente seu relacionamento com a humanidadem na qual se encarnara para redimí-la. Do auge da dor, expressou o carinho de um Deus por sua Mãe Santíssima, e concedeu o prêmio para o discípulo que abandonara seus próprios pais para segui-Lo: o cêntuplo nesta terra (Mt 19, 29).
É perfeita e exemplar a presteza com que São João assume a herança deixada pelo Divino Mestre:"E dessa hora em diante, o discípulo a levou para a sua casa" (Jo 19, 27). São João desce do Calvário protegendo, mas sobretudo protegido pela Rainha do céu e da terra. É o prêmio de quem procura adorar Jesus no extremo de seu martírio.


Quarta Palavra: "Meu Deus, meu Deus, por que Me abandonaste? (Mt 27, 45). Jesus clama em alta voz. Seu brado fende não somente os ares daquele instante, mas os céus da história. Nossos ouvidos são duros, era indispensável falar com força. Jesus não profere uma queixa, nem faz uma acusação. Deseja, por amor a nós, fazer-nos entender a terrível atrocidade de seus tormentos. Assim mais facilmente adquiriremos clara noção de quanto pesa nossos pecados e de quanto devemos ser agradecidos pela Redenção.

Como entender esse abandono? Não rompeu-se - e é impossível - a união natural e eterna entre as pessoas do Pai e do Filho. Nem sequer separaram-se as naturezas humana e divina. Jamais se interrompeu a união entre a graça e a vontade de Jesus. Tampouco perdeu sua alma a visão beatífica.
Perdeu Jesus, sito sim, e temporariamente, a união de proteção à qual Ele faz menção no Evangelho: "Aquele que me enviou está comigo; ele não me deixou sozinho" (Jo, 8, 29). O Pai bem poderia protegê-Lo nessa hora (cfr. Mc 14, 36; Mt 26, 53; Lc 22, 43). O próprio Filho poderia proteger seu Corpo (Jo 10, 18; 18, 6), ou conferir-lhe o dom de incorruptibilidade e de impassibilidade, uma vez que sua alma estava na visão beatífica.
Mas assim determinou a Santíssima Trindade: a debilidade da natureza humana em Jesus deveria prevalecer por um certo período, a fim de que se cumprisse o que estava escrito. Por isso Jesus não se dirige ao Pai como em geral procedia, mas usa da invocação "meu Deus".
A ordem do universo criado é coesa com aordem moral. Ambas procedem de uma mesma e única causa. Se a primeira não se levanta para se vingar daqueles que dilaceram os princípios morais por meio de seus pecados, é porque deus lhe retém o ímpeto natural, Se assim não fosse, os céus, os mares e os ventos se ergueriam contra toda e qualquer ofensa feita a Deus. (...)


Quinta Palavra: "Tenho SEDE." (Jo 19, 28)

Assinala o evangelista que Jesus dissera tais palavras por saber "que tudo estava consumado, para se cumprir plenamente a Escritura". Vendo um vaso cheio de vinagre que havia por ali, os soldados embeberam uma esponja, "e fixando-a numa vara de hissopo, chegaram-lhe à boca" (Jo 19, 28-29).
Cumpria-se assim o versículo 22 do salmo 68: "Puseram fel no meu alimento; na minha sede deram-me vinagre para beber."


Qual a razão mais profunda desse episódio? É um verdadeiro mistério.

Jesus derramara boa quantidade de seu preciosíssimo Sangue durante a flagelação. As chagas em via de cicatrização, foram reabertas ao longo do caminho e ainda mais quando Lhe arrancaram as roupas para crucificá-Lo. O pouco sangue que Lhe restava escorria pelo sagrado lenho. Por isso, a sede tornou-se ardentíssima. Além desse sentido físico, a sede de Jesus significava algo mais: o Divino Redentor tinha sede da glória de Deus e da salvação das almas.
E o que lhe oferecem? Um soldado lhe apresenta, na ponta de uma vara, uma esponja empapada de vinagre. Era a bebida dos condenados.
Podemos de alguma maneira aliviar pelo menos esse tormento de Jesus? Sim! Antes de tudo, compadecendo-nos d'Ele com amor e verdadeira piedade, e apresentando-Lhe um coração arrependido e humilhado.
(...) Para Ele será água fresca e cristalina nossa fuga vigilante das ocasiões próximas de pecado. Compadeçamo-nos também dos que vivem no pecado ou nele caem, e trabalhemos por sua salvação. Em suma, apliquemo-nos com ânimo na tarefa de apressar o triunfo do Imaculado Coração de Maria.
O Salvador clama a nós do alto da cruz que defendamos, mais ainda que o bom ladrão, a honra de Deus, procurando conduzir a opinião pública para a verdadeira Igreja. É nosso dever buscar entusiasmadamente a glória de Cristo, "que nos amou e por nós se entregou a Deus como oferenda e sacrifício de agradável odor." (Ef 5, 2).


Sétima Palavra: "Pai, nas tuas mãos, entrego o meu espírito" (Lc 23, 46)

Estabeleceu-se na Igreja, desde os primórdios, o costume de encomendar as almas dos fiéis defuntos, a fim de que a luz perpétua os ilumine.
Jesus, porém, não tinha necessidade de encomendar sua alma ao Pai, pois ela havia sido criada no pleno gozo da visão beatífica. Desde o primeiro instante de sua existência, encontrava-se unida à natureza divina na pessoa do Verbo. Portanto, ao abandonar o corpo sagrado, sairia vitoriosa e triunfante. "Meu espírito", e não alma, provavelmente aqui significaria a vida corporal de Jesus.
Mas, Jesus aguardava sua ressurreição para logo. Ao entregar ao Pai a vida que d'Ele recebera, sabia que ela Lhe seria restituída no tempo devido.
Com reverência tomou o Pai Eterno em suas mãos a vida de seu Filho unigênito, e com infinito comprazimento a devolveu, no ato da ressurreição, a um corpo imortal, impassível e glorioso. Abriu-se, assim, o caminho para a nossa ressurreição, ficando-nos a lição de que ela não pode ser atingida senão pelo calvário e pela cruz.

AVE CRUX, SPES ÚNICA.

Monsenhor João Clá Dias, EP.
(Revista Arautos do Evangelho, Março/2002, n. 3, p. 13 à 17)


Agonia de Jesus no Monte das Oliveiras: Confiar no Projeto de Deus


“Pai, se for possível, afasta de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero mas como tu queres” (Mateus 26; 39).
Jesus sabia que durante sua flagelação e crucificação sua condição humana prevaleceria sobre sua condição divina. Deus não morreu na Cruz! Foi Jesus, em sua condição humana que fora crucificado. Enquanto isso o Pai já garantia sua Ressurreição no terceiro dia.
Mas mesmo diante de sua agonia Jesus se mostrou firme em sua humildade e obediência, ciente de que o Projeto de Deus era maior que sua própria e momentânea condição humana.

E quantas vezes nós ao nos depararmos com situações complicadas e/ou inesperadas queremos que o cálice se afaste de nós? Divergindo de Jesus, não confiamos no Projeto de Deus e acreditamos que nossa limitada condição humana possa prevalecer sobre este projeto. Sem cruz não há ressurreição: “Os meus projetos não são os projetos de vocês, e os caminhos de vocês não são os meus caminhos - oráculo de Javé. Tanto quanto o céu está acima da terra, assim os meus caminhos estão acima dos caminhos de vocês, e os meus projetos estão acima dos seus projetos. Da mesma forma como a chuva e a neve, que caem do céu e para lá não voltam sem antes molhar a terra, tornando-a fecunda e fazendo-a germinar, a fim de produzir semente para o semeador e alimento para quem precisa comer, assim acontece com a minha palavra que sai de minha boca: ela não volta para mim sem efeito, sem ter realizado o que eu quero e sem ter cumprido com sucesso a missão para a qual eu a mandei”. (Isaías 55;8-11).



Os apóstolos de Jesus dormiam enquanto o Mestre se agoniava. Os amigos mais íntimos de Jesus não conseguiam ajudá-lo.
E quantas vezes em nossa vida nos sentimos sozinhos, mesmo diante de multidões que parecem estar dormindo e não percebem nosso sofrimento?

O único apóstolo de Jesus acordado é Judas Iscariotes, seu traidor, que o entrega com um beijo: um gesto tão carinhoso e íntimo, usado para o mal.
Quantas vezes não somos traídos por pessoas nas quais confiávamos. E quantos gestos, símbolos e sentimentos são deturpados e usados para o mal:
- Letras de músicas estimulando a infidelidade, a poligamia, o adultério: o que deveria ser arte profanada e usada para deturpar valores humanos e religiosos.
- Beleza de corpos usados para vulgaridade e pornografia: a beleza transformada em objeto descartável de uma falsa sensação de satisfação.



“Nesse momento, um dos que estavam com Jesus estendeu a mão, puxou da espada, e feriu o empregado do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha. Jesus, porém, lhe disse: ‘Guarde a espada na bainha. Pois todos os que usam a espada, pela espada morrerão. Ou você pensa que eu não poderia pedir socorro ao meu Pai? Ele me mandaria logo mais de doze legiões de anjos. E, então, como se cumpririam as Escrituras, que dizem que isso deve acontecer?’ (Mateus 26; 51-54)
Jesus reafirma sua confiança em Deus. Mesmo diante de sua iminente morte não usurpou o projeto de Deus pedindo um socorro que seria uma solução imediatista, mas que atrapalharia todo o projeto divino da Salvação. E mesmo diante das circunstâncias adversas renega a violência, conforme em toda sua vida e pregação: não cai em contradição por saber que o projeto de Deus é maior.
Quantas vezes queremos um socorro imediato que só piora a situação à longo prazo? E será que não caímos em contradição com nosso discurso com nossas ações e omissões em situações adversas?



Conforme nos atesta São Paulo em sua carta aos Filipenses:
“Jesus Cristo, existindo em condição divina, não faz do ser igual a Deus uma usurpação. Pelo contrário, esvaziou-Se a Si mesmo assumindo a condição de escravo e tornando-Se igual aos homens Assim, apresentando-se como simples homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz! Por isso, Deus o exaltou grandemente, e lhe deu o nome que está acima de qualquer outro nome; para que, ao nome de Jesus, se dobre todo joelho no céu, na terra e sob a terra; e toda língua confesse
que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai.” (Filipenses 2, 6-11)

Aprendemos pois, com Cristo, a confiar no projeto de Deus, não buscando soluções imediatistas que colocam nosso conforto em primeiro lugar; saíamos deste egocentrismo baseado no nosso limitado pensamento humano, aceitemos nossa cruz e aguardemos nossa Ressurreição para confirmação do Projeto de Deus e para Glória de Seu Nome, não pro nosso merecimento, mas pela sua infinita misericórdia.


quarta-feira, 27 de março de 2013

Semana Santa


Na Semana Santa os Cristãos do mundo inteiro celebram o mistério a Paixão e Ressurreição de Jesus Cristo. A Liturgia da Igreja Católica Apostólica Romana celebra ainda a Instituição da Santa Eucaristia e do Sacerdócio. Os maiores mistérios de nossa Fé são vivenciados neste período. Estamos em um momento de profunda espiritualidade. A Semana Santa não é um “só mais um feriado prolongado”. É muito mais que isso. Não podemos apenas relembrar a Paixão e Ressurreição do Senhor como quem relembra um fato visualizando um álbum de fotos: devemos vivenciar este momento de espiritualidade, pois a história da salvação continua permanentemente na história da humanidade através de nós, discípulos de Jesus. Devemos relembrar o amos supremo do verbo encarnado que se entregou por nós não tendo culpa alguma, e nos salvou da morte e do pecado: “ele foi castigado por nossos crimes, e esmagado por nossas iniquidades; o castigo que nos salva pesou sobre ele; fomos curados graças às suas chagas.” (Isaías 53:5) e mesmo diante do sofrimento da cruz perdoou seus assassinos: "Pai, perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem" (Lc 23,34) e garantiu a salvação àquele que se arrependeu de seus atos e temeu a Deus em seus últimos momentos de vida terrena: Em verdade eu te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso”. (Lc 23, 32-43).
Abaixo breves reflexões sobre os momentos da Semana Santa.

“É uma semana especial, um tempo que revivemos a cada ano, não como fatos do passado e sim como atualização aqui e agora da presença de Deus que continua salvando a cada um de nós, criaturas feitas a Sua imagem e semelhança.
(...)
Sem merecimento fomos perdoados por um Deus tão humano e próximo de nós.”
(Dom Anuar Battisti - Arcebispo de Maringá/PR)


“A Semana Santa deve ser um tempo de recolhimento, de interiorização e de abertura do coração e da mente para o Deus da vida. Significa fazer uma parada para reflexão e reconstrução da espiritualidade, essencial para o equilíbrio emocional e segurança no caminho natural da história de vida com mais objetividade e firmeza.
Jesus foi açoitado, esbofeteado, teve a barba arrancada, foi insultado e cuspido. O detalhe principal é que nenhum sofrimento O fez desistir de Sua missão nem ter atitude de vingança. Ele deixou claro que o perdão é mais forte do que a vingança.
Devemos aprender com Ele e olhar a vida de forma positiva, sabendo que seu destino é projetado para a eternidade em Deus.”
(Dom Paulo M. Peixoto - Arcebispo de Uberaba /MG)

 

“Hoje meditamos sobre o preço a ser pago. Ditado comum que escutamos quase sempre: ‘tudo tem seu preço’. A nossa salvação também tem um preço, que na verdade foi pago para nós e não que pagamos por ela. Vivemos numa cultura imediatista e onde queremos encontrar soluções rápidas e fáceis para tudo. A cultura do descartável, do passageiro, mas esquecemos muitas vezes, que problemas difíceis e demorados exigem soluções difíceis, comprometedoras e demoradas, ou seja, a longo prazo. E nem sempre queremos ‘pagar’ esse preço!”
(Padre Luizinho, Comunidade Canção Nova)


“Nesta Semana tudo celebra o Mistério da Salvação, (...) Quando celebramos a liturgia e de forma especial nesta semana A Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor, não estamos recordando, como num álbum de fotos ou num filme de gravações de memórias passadas. A espiritualidade das celebrações litúrgicas atualizam em nossa vida hoje o Mistério que estamos celebrando, ou seja, estamos vivendo e recebendo as graças eficazes do que estamos celebrando, rezando. Por isso, celebrar a liturgia não é fazer uma simples memória, mas trazer para minha vida hoje, atualizar, tornar novo, Aquilo que nos trouxe Jesus Cristo, seus gestos, Palavras e principalmente o Amor que o levou a morrer por nós na cruz.”
“O Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor abre solenemente a Semana Santa. No século IV, já encontramos em Jerusalém notícias sobre uma celebração que procurava recordar o mais exatamente possível à entrada histórica de Jesus de Nazaré na cidade. Cristo que é saudado como Messias e Rei entra voluntariamente para sua Paixão. A liturgia das palmas antecipa neste domingo, chamado de páscoa florida, o triunfo da ressurreição, enquanto que a leitura da Paixão nos convida a entrar conscientemente na Semana Santa da Paixão gloriosa e amorosa de Cristo o Senhor.

Sentido do Tríduo Pascal

O Tríduo Pascal é a maior celebração das comunidades cristãs. A Páscoa é o centro do ano litúrgico, fonte que alimenta a nossa vida de fé. Celebrar o Tríduo Pascal da paixão e ressurreição do Senhor é celebrar a obra da redenção humana e da perfeita glorificação de Deus que o Cristo realizou quando, morrendo, destruiu a nossa morte e ressuscitando, renovou a vida.

O que celebramos na Quinta-feira Santa?

O Senhor celebrara com os seus a última ceia no contexto da páscoa judaica: a comemoração da passagem de Israel pelo Mar Vermelho. Nesse dia, Cristo inaugura à nova Páscoa, a da aliança nova e eterna, a de seu pão compartilhado e seu sangue derramado, a de seu amor levado ao extremo e do mandato do amor para nós, a de sua passagem pela morte à ressurreição, a Páscoa que devemos celebrar em sua comemoração. Eucaristia, sacerdócio, mandato do amor e nova Páscoa do Senhor são o conteúdo preciso da missa da Ceia do Senhor. O transporte das formas (hóstias) consagradas à urna para a comunhão da sexta-feira inicia-se no século XIII. O “monumento” (local físico) é elemento acidental e só encontra sentido em vinculação com o mistério celebrado: agradecimento ao amor de Cristo e oração-reflexão do mistério pascal.

O que celebramos na Sexta-feira Santa?

Como vem acontecendo há muito tempo, na Sexta Feira da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, não se celebra a missa, tendo lugar à celebração da morte do Senhor: o mistério que é celebrado é uma cruz dolorosa e sangrenta, mas ao mesmo tempo vitoriosa e resplandecente. Trata-se de morte, a de Cristo, real e tremenda; mas é passagem para uma vida ressuscitada e eterna. O amor de Deus, que é vida, terá mais poder do que o pecado do homem, que é morte. A celebração incorpora-nos à redenção de Cristo e a seu mistério de salvação universal: pela morte à vida.

O que celebramos na Vigília Pascal?

Contamos com documentos do início do século III, que apresentam alguns elementos desta celebração, tais como: jejum, oração, eucaristia – e até batismo, com a bênção da “fonte batismal”. Vão-se acrescentando depois novos elementos: o canto do Exulte, que se vê documentado no século IV e a bênção do círio pascal, no século V. Pouco a pouco, foi-se enriquecendo esta última, que deve ser “a celebração das celebrações” para o cristão, e a que Santo Agostinho denominava “Mãe de todas as vigílias”. Assim ouvimos com alegria: “Cristo ressuscitou, verdadeiramente, dos mortos”! Num duelo admirável a morte lutou contra a vida, e o Autor da vida se levanta triunfador da morte. Terminou o combate da luz com as trevas, combate histórico de Jesus com os fariseus e todas aquelas pessoas que não acolheram o Reino de Deus. Após as trevas brilhará o sol da Ressurreição!”

(Padre Luizinho, Comunidade Canção Nova)


O que celebramos na Páscoa?

“A vitória de Cristo é a vitória de cada um de nós que morreu com Ele no Batismo e ressuscitou para a vida permanente em Deus; agora e na eternidade.”
(Professor Felipe Aquino, Comunidade Canção Nova)

“ ‘Exulte o céu, e os Anjos triunfantes, mensageiros de Deus, desçam cantando; façam soar trombetas fulgurantes, a vitória de um Rei anunciando’.

É assim que a Igreja celebra o anúncio da vitória da Vida sobre a morte, da Luz sobre as trevas: Cristo Ressuscitou, Aleluia! No céu se realiza essa grandiosa festa entre os anjos que, cumprindo a missão a eles confiada, descem para a terra e comunicam aos homens essa linda realidade. A festa do céu chegou até nós! Aquele que estava morto vive! O fogo novo do Círio Pascal entra na igreja ainda escura para mostrar essa vitória da vida sobre a morte.
A luz nova que entra na igreja é o sinal da Luz de Cristo que também chega até os nossos corações. Todos são iluminados, só precisamos deixar que essa Luz Verdadeira penetre o mais profundo em nosso ser, dissipando qualquer sombra e erradicando em nós as raízes da vida velha. A Páscoa é muito mais que a “festa do chocolate”. Para nós, resgatar o verdadeiro sentido desta solenidade é questão de crescimento na nossa identidade de cristãos autênticos.

A ressurreição de Cristo dá o sentido de todas as outras festas cristãs, enche de esperança os sofrimentos e inaugura um tempo novo de crescimento rumo à realização do projeto de Deus também para nós. Aquele que morreu por nós, também por nós ressuscitou, para deixar claro que esse projeto do Pai também se realizará nas nossas vidas.”
(Monsenhor  Jonas Abib,
Fundador da Comunidade Canção Nova)